Esperamos anoitecer, para que a rodovia
ficasse mais tranqüila e vazia e, mesmo ainda cansado, partimos. A idéia era
evitar passar em São Paulo de dia. Tínhamos 3,5h até o Rio e umas 6h até Sampa.
O calculo das horas já não estava tão ao nosso favor...
Sem muito transito, fui bem devagar até a
BR. Desliguei o som do carro para ouvir os barulhos que faziam as amarrações e,
concentrado, acompanhar o comportamento do barco. Desde ali eu já percebia que
teria que ter bastante paciência e manter uma velocidade bem baixa durante todo
o percurso.
Mesmo assim, o primeiro caminhão que cruzou
por mim me fez relembrar isso a viagem inteira...
Mesmo eu andando a 60 km/h, o primeiro
caminhão que passou por mim em sentido oposto, fez um deslocamento de ar imenso!!
A proa do Ikara, sobre o pára-brisa, pareceu um trampolim de piscina balançando
e chegaou a deslocar o Ikara da posição central do eixo longitudinal do carro.
Foi o primeiro teste para as cintas, que agüentaram firmes.
Esta foi a primeira parada para ajustes dos
cabos. A partir daí, minha velocidade não passou dos 60 km/h e toda a vez que
um caminhão ou ônibus vinha em direção contrária, eu levava o carro para o
limite da pista e o acostamento, evitando assim sofrer a pressão do
deslocamento de ar.
Fig1.
Os queridos caminhões
Não é porque esta viagem tinha que ser
feita, que foi fácil e tranqüila. Dois mil km já são um desafio quando se tem a
liberdade para acelerar, agora, com um barco no teto e a 60 km/h não é nada
fácil. Haja paciência...
Mas aí entra a diferença entre o regateiro
e o cruzeirista, um vive a partida/chegada e o outro vive o percurso.

Fig2.
A sombra do Ikara em algum lugar da BRiói...
Eu tinha as limitações de uma regata: tinha
ponto inicial, ponto final, pontos a alcançar, querendo fazer em menor tempo,
etc.
Mas fiz a viagem como um cruzeirista, bem
tranqüilo, aproveitando a vista. Parei quando quis parar, ajustei as
amarrações, fiz minhas previsões, analisei mudanças na rota, etc. Aproveitei a
indiada!
Acabei por não fazer nenhuma mudança no planejamento, mas tive a
liberdade de poder fazer e isto é a grande vantagem do cruzeirista.


Fig3.
Paradouros.
Assim como na ida do Rio para Rio das
Ostras eu queria ter feito o percurso navegando, fiz até um plano,
seria genial fazer esta ida por água, loucura?
Mas como não deu, injuriado, passei a
viagem toda pensando nos locais que eu poderia parar para velejar um pouco.
Ainda no estado do Rio, a tentação do Ikara
era parar na Lagoa de Araruama, na velha Guanabara ou mesmo na Rodrigo de
Freitas para botar vento nas velas.
Lagoa de Araruama - RJ.
Era noite e tinha muita água, ou melhor, muito
asfalto pela frente e segui para São Paulo aonde tem algumas represas, quem
sabe lá? Dizia o Ikara...
Contornei o Paraíba do Sul acompanhando a
Dutra e o Ikara só me olhava pensando tipo: “E por aqui, não podemos velejar?”
Ainda na Dutra, a Serra das Araras era meu maior medo. "E se
esta bosta chega a tombar do teto pela inclinação da rodovia? ou e se o
Golzinho mil não suba a serra?"
Atravessamos a serra dirigindo pela
terceira faixa, andávamos mais devagar que os caminhões roda-presa da faixa da direita.
Ao meio dia do dia seguinte estávamos na
capital paulista, saboreando um engarrafamento na Tiete.
Deixei Sampa e no Paraná nem olhei para a Babitonga, senão era bem possível parar para dar uma velejadinha.

Obras, engarrafamentos, serras, pedágios e asfalto, muito asfalto. Infelizmente, carros não possuem pilotos automáticos como nos barcos e no início da noite piloto já não aguentava mais. Parei depois de passar Joinvile, num hotel que tinha estacionamento fechado.
Um banho quente, um bom café da manhã e uma
ótima e confortável noite de sono reanimam qualquer velejador.
Bueno, agora era como "jacavalo": Larga as
rédeas que ele ruma para casa!!
Mas antes de chegar ao RS, ainda cogitamos a Lagoa da Conceição em Floripa.
Mas antes de chegar ao RS, ainda cogitamos a Lagoa da Conceição em Floripa.
Cruzamos Laguna e depois o Mampituba,
pronto: Não é que chegamos no RS, Ikara?
Lagoa dos Quadros, Lagoa do Casamento,
Lagoa Negra... não faltavam tentações, mas queríamos mesmo era a Lagoa dos
Patos.
Deixamos POA e o Ikara quase saltou de cima
do carro para as águas do Guaíba quando cruzamos a ponte.
Continuávamos percorrendo a BR 116, mas minhas idéias já navegavam as barrentas águas da Lagoa dos Patos que percorriam nosso mesmo rumo, paralelas a nós.
Continuávamos percorrendo a BR 116, mas minhas idéias já navegavam as barrentas águas da Lagoa dos Patos que percorriam nosso mesmo rumo, paralelas a nós.
Itapuã, Guaíba, Barra do Ribeiro, Tapes,
Arambaré, São Lourenço do Sul... a cada quilometro para o Sul fomos adiando as
aventuras para chegar logo e encontrar a fita azul na Praia do Laranjal.
A noite caiu e chegávamos ao nosso destino.
Depois de 2020 km “velejados”. O Ikara chegava as margens da Lagoa dos Patos. De
tão cansado, deixei o Ikara de castigo sobre o teto do carro e fui dormir.
Sonhando com as novas aventuras que este barquinho vai aprontar em seu novo quintal de casa...






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