Era a primeira vez que o Imediato assumia o comando do leme.
E logo viu que não havia muito segredo na função.
“Para onde vamos Japonês?”
“Sei lá”, responde ele.
Levantou a cabeça, olhou o nosso
horizonte e exclamou: “Bora pra Niterói”.
Acho ótima a inconsequência de
quem não enxerga o perigo.
“Vamos lá!”,
pensei eu, quem sabe a gente não encontra uns pastéis por lá?
Já era meio da tarde daquela
terça-feira e com vento bom fomos passando na frente da laje e cruzando o
canal. Entravamos na enseada de São Francisco.
Nosso rumo era Niterói, mas aonde
exatamente não tínhamos idéia. Então tivemos a brilhante idéia de chegar nos
clubes náuticos e comprar dois pastéis e uma coca e voltar pro Guanabara, que
fechava a rampa as 19h.
Rodeamos as enseadas de Niterói e
avistamos alguns clubes náuticos. Brasileiro? Charitas? Naval? Tanto fazia para
nós só queríamos dois pastéis.
Paramos no primeiro que encontramos. Mas logo
que encostamos, nos barraram. Seguimos sem graça para o clube vizinho. Chegamos
lá, encostamos no píer, desci e corri ao bar.
Tirei o dinheiro molhado do bolso
e voltei correndo pro Ikara, com as mãos cheias de pastéis.
Chegando lá o
imediato já estava em casa, altos papos com os marinheiros do clube.
“Japonês, vambora! Não vamos
chegar a tempo e a rampa vai fechar.”
Montamos no Ikara, cambamos para
270°
e não tirávamos os olhos da enseada de Botafogo.
Os prédios e a encosta impediam o
vento de passar e nosso progresso era limitado até chegarmos na parte central
da enseada. Aí sim começamos a andar.
Ao sairmos da enseada, de volta a
Guanabara tudo ia bem. Chegaríamos no limite, mas chegaríamos a tempo. Até que
o Japonês falou: “Ikara, fudeu...”
“Aquilo lá não é um navio vindo pra cá?”
“Não.... É um transatlântico!!!!”
E o pior, vinha outro atrás dele.
Eram dois agora.
Cacei a vela, o barco adernou e
aceleramos.
Ainda não estávamos no canal e percebi que o primeiro
transatlântico cruzaria o canal um pouco antes de nós. Tinha uma boa distância
entre os dois navios e não podíamos esperar os dois passarem, senão perderíamos
a rampa aberta.
Percebi que mesmo a toda vela, o primeiro navio vinha com
uma velocidade maior e passaria na nossa proa antes de cruzarmos o canal. Com o
apoio do meu amigo Kamikaze, segui o curso.
Para garantir que não nos atropelaria, ao nos aproximar,
mirei nosso rumo em sua popa. Podíamos ver os passageiros do navio e vários deles
nos fotografavam. O Cmte do transatlântico, sem entender o que fazíamos ali,
acionava os silvos, provavelmente querendo que retornássemos.
Mas minha preocupação não era o primeiro e sim o segundo que
vinha atrás e no mesmo ritmo.
O gigante branco passou pela nossa proa e não cortou nosso
vento. Continuávamos no rumo de Botafogo.
Nossa (in)prudência foi tanta para
ficar longe do segundo navio que cruzamos o canal muito próximo a popa do
primeiro navio. Pegamos a esteira dele, o que para nós, em um veleiro de 4,2m,
eram ondas gigantes e por pouco não viramos o Ikara.
Mas este barquinho é guerreiro, ajustamos as velas e
conseguimos cruzar o canal. Só percebemos o que tínhamos feito quando contamos
a história na rampa do CRG que nos esperava aberta.
Desmontamos o Ikara, o lavamos e o guardamos. E fomos para o
bar da rampa saborear nossa aventura à Niterói.

