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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Kamikaze

Era a primeira vez que o Imediato assumia o comando do leme. E logo viu que não havia muito segredo na função. 

Para onde vamos Japonês?”

Sei lá”, responde ele. 

Levantou a cabeça, olhou o nosso horizonte e exclamou: “Bora pra Niterói”.

Acho ótima a inconsequência de quem não enxerga o perigo. 

Vamos lá!”, pensei eu, quem sabe a gente não encontra uns pastéis por lá?

Já era meio da tarde daquela terça-feira e com vento bom fomos passando na frente da laje e cruzando o canal. Entravamos na enseada de São Francisco.

  

Nosso rumo era Niterói, mas aonde exatamente não tínhamos idéia. Então tivemos a brilhante idéia de chegar nos clubes náuticos e comprar dois pastéis e uma coca e voltar pro Guanabara, que fechava a rampa as 19h.

Rodeamos as enseadas de Niterói e avistamos alguns clubes náuticos. Brasileiro? Charitas? Naval? Tanto fazia para nós só queríamos dois pastéis. 

Paramos no primeiro que encontramos. Mas logo que encostamos, nos barraram. Seguimos sem graça para o clube vizinho. Chegamos lá, encostamos no píer, desci e corri ao bar. 

Tirei o dinheiro molhado do bolso e voltei correndo pro Ikara, com as mãos cheias de pastéis. 

Chegando lá o imediato já estava em casa, altos papos com os marinheiros do clube.

“Japonês, vambora! Não vamos chegar a tempo e a rampa vai fechar.

Montamos no Ikara, cambamos para 270° e não tirávamos os olhos da enseada de Botafogo.

Os prédios e a encosta impediam o vento de passar e nosso progresso era limitado até chegarmos na parte central da enseada. Aí sim começamos a andar.

Ao sairmos da enseada, de volta a Guanabara tudo ia bem. Chegaríamos no limite, mas chegaríamos a tempo. Até que o Japonês falou: “Ikara, fudeu...”

Aquilo lá não é um navio vindo pra cá?”

Não.... É um transatlântico!!!!”

E o pior, vinha outro atrás dele. Eram dois agora.

Cacei a vela, o barco adernou e aceleramos.

Ainda não estávamos no canal e percebi que o primeiro transatlântico cruzaria o canal um pouco antes de nós. Tinha uma boa distância entre os dois navios e não podíamos esperar os dois passarem, senão perderíamos a rampa aberta.

Percebi que mesmo a toda vela, o primeiro navio vinha com uma velocidade maior e passaria na nossa proa antes de cruzarmos o canal. Com o apoio do meu amigo Kamikaze, segui o curso.

Para garantir que não nos atropelaria, ao nos aproximar, mirei nosso rumo em sua popa. Podíamos ver os passageiros do navio e vários deles nos fotografavam. O Cmte do transatlântico, sem entender o que fazíamos ali, acionava os silvos, provavelmente querendo que retornássemos.

Mas minha preocupação não era o primeiro e sim o segundo que vinha atrás e no mesmo ritmo.

O gigante branco passou pela nossa proa e não cortou nosso vento. Continuávamos no rumo de Botafogo. 

Nossa (in)prudência foi tanta para ficar longe do segundo navio que cruzamos o canal muito próximo a popa do primeiro navio. Pegamos a esteira dele, o que para nós, em um veleiro de 4,2m, eram ondas gigantes e por pouco não viramos o Ikara.

Mas este barquinho é guerreiro, ajustamos as velas e conseguimos cruzar o canal. Só percebemos o que tínhamos feito quando contamos a história na rampa do CRG que nos esperava aberta.


Desmontamos o Ikara, o lavamos e o guardamos. E fomos para o bar da rampa saborear nossa aventura à Niterói.

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